PAULO BORGES: “A FILOSOFIA TAMBÉM É LITERATURA”

“Aquí se verá cómo el Profesor” Paulo Borges, miembro del Comité Científico del Coloquio, “responde a las cuestiones que le plantea” Daniel Moreira Duarte, respecto a la Literatura y a la Filosofía, respecto a Pessoa y respecto a la actualidad de los estudios pessoanos.

Daniel Moreira Duarte – O Paulo Borges é Investigador e Professor de Filosofia. E dedica-se em especial às áreas da Filosofia da Religião e da Filosofia em Portugal, entre outras. No entanto, todo o seu trabalho é atravessado pelo seu interesse pela Literatura, em especial pela Poesia: estou certo?

Paulo Borges – Sim, na verdade… Penso que a experiência literária, em particular a experiência poética, é uma das mais profundas que o Homem pode ter. E é uma das fontes mais interessantes para o exercício da hermenêutica filosófica. Como o próprio Kant reconheceu, as imagens, as imagens simbólicas, ajudam-nos a pensar para além do já pensado, a questionar e a transcender os conceitos já elaborados. Nesse sentido, a literatura e particularmente a poesia serão sempre uma fonte inesgotável de conhecimento, de conhecimento mais intuitivo, não é?, para o exercício da razão filosófica: daí o meu interesse.

D.M.D. – Quer dizer, então, que a Literatura não é apenas uma forma de expressão da Filosofia, é também um motor da Filosofia?!

P.B. – Sim, podemos dizer que sim, no sentido em que a Filosofia também é Literatura… Uma Literatura que se autoreflecte, reflectindo a Literatura original que é o próprio mundo.

D.M.D. – Em termos muito gerais, qual é para si a relação que existe, ou deveria existir, entre Literatura e Filosofia?

P.B. – Não vou dizer qual é a relação que deveria haver, porque não penso que se trate do que deve ser, mas sim, antes, de constatar aquilo que existe. O que me parece é que, por um lado, a experiência literária, a escrita literária, é, como eu disse, um material, um recurso importante para o exercício da razão filosófica. Mas, por outro lado, pode-se considerar que na própria Literatura, tal como na Poesia, ou sobretudo na Poesia, há já um modo de pensar que pode ser considerado implicitamente filosófico. Não é decerto explicitamente filosófico, não é formalmente filosófico, mas há uma filosofia, ou um pensamento implícito, na experiência literária. Antes mesmo da expressão literária, destacaria a importância da experiência literária, da experiência poética, e é aí que a Filosofia pode ir beber… No fundo, seria uma forma também de regressar às origens da própria experiência filosófica. Eu sou muito sensível à perspectiva, por exemplo, de uma autora como a María Zambrano, que diz que a Filosofia surgiu por uma espécie de violência feita sobre a experiência originária da própria Filosofia, que seria a experiência do espanto poético. Enquanto o poeta (ou o místico) fica de algum modo suspenso nessa experiência do espanto perante o maravilhoso da presença imediata e sensível do mundo, o filósofo carece de violentar essa experiência originária para se separar dela, para poder começar a pensar sobre ela e sobretudo para a conceptualizar. Uma filosofia que regressa à experiência literária e poética é uma filosofia que regressa também às suas próprias origens e que se reconcilia com elas.

D.M.D. – E quais são as particularidades da relação entre Filosofia e Literatura em Portugal e no espaço da lusofonia?

P.B. – Gostaria de falar mais sobre a dimensão portuguesa. É mais ou menos reconhecido, por vários historiadores, estudiosos e comentadores do pensamento português, que, em Portugal mais do que porventura noutras culturas, o pensamento filosófico se exerce no modo híbrido de uma relação radical com a experiência literária e a experiência poética, entre outras: também com a experiência religiosa, com a experiência espiritual, com a experiência estética, com a experiência política, com a experiência histórica, mas talvez com uma tónica maior na experiência literária e na experiência poética. Em Portugal tende-se a pensar o impensável por via conceptual e daí a mediação privilegiada da imagem simbólica e da metáfora. Embora isso nem sempre tenha sido pensado e reconhecido, creio que, pelo menos em Portugal, a consciência dessa relação profunda entre Poesia e Filosofia data do final do século XIX, início do século XX, com autores como Antero de Quental, que aliás praticou os dois géneros, Teixeira de Pascoaes e o próprio Fernando Pessoa…, e a partir daí são muitos os autores, chegando mais perto de nós, como o Vergílio Ferreira e outros, que têm consciência das profundas relações entre Filosofia e Literatura e que cultivam essas relações.

D.M.D. – A poesia lusófona.., ou portuguesa, é mais rica filosoficamente do que outras poesias, noutras línguas?

P.B. – Não consigo responder a isso, porque precisaria de conhecer outras poesias tão bem como conheço ou como vou conhecendo a poesia portuguesa. Mas estou convencido de que, pelo menos nas línguas, literaturas e poesias de outras culturas que conheço, encontramos também uma Poesia eminentemente filosófica, uma Poesia metafísica, uma Poesia que nos oferece visões do mundo, e portanto não diria que a poesia portuguesa é mais filosófica.

D.M.D. – Também existe em Portugal, como em todo o espaço lusófono, uma literatura filosófica de género académico: é a tradição filosófica académica mais pobre em Portugal ou noutros países lusófonos do que noutras comunidades linguísticas? Ou em que medida é que se pode dizer, se é que se pode, que a filosofia lusófona se encontra expressa sobretudo na poesia? E a que é que se deve esse fenómeno, em todo o caso, ou que valor lhe devemos dar?

P.B. – Diria talvez que em Portugal a Filosofia se emancipou menos da Literatura, da Poesia, do Mito e da experiência religiosa, anterior às religiões, o que considero um factor positivo, na medida em que isso significa um afastar-se menos da Vida nas suas expressões mais originárias e intensas… Alguns consideram que isso corresponde a um certo hibridismo, a uma certa imaturidade do pensamento filosófico português, que deveria ser mais formal, mais sistemático, mais académico, mas eu penso que…, naturalmente, isso traz desvantagens para o pensamento português em termos da sua sistematicidade e rigor lógico-formal, mas, por outro lado, essas desvantagens são o outro lado da moeda, que apresenta muitas vantagens: o pensamento português é um pensamento mais aberto, mais aberto à metáfora, ao símbolo, à imagem, mais aberto, diria até mesmo, a outras possibilidades da consciência, não-conceptuais e meta-discursivas, mais do que um pensamento muito lógico-formal e académico.

D.M.D. – Pode é ter dificuldades em competir, no mundo actual, com filosofias mais formais, não?

P.B. – Num sentido sim, mas no mundo actual também há uma reacção contra essas filosofias mais formais, também há uma busca de um pensamento mais híbrido, mais informe, mais invertebrado, e nessa perspectiva penso que está ainda por descobrir toda a riqueza do pensamento ambíguo, do pensamento anfíbio que existe em Portugal, que é um misto de Filosofia e Poesia. Se viermos a ganhar mais visibilidade cultural no mundo, estou convicto que muitos estrangeiros se poderão interessar muito pelas singularidades do pensamento português e, precisamente, por essa relação íntima entre Poesia e Filosofia que, por exemplo, tão bem se expressa no pensamento aforístico, muito cultivado entre nós, e que não deixa de representar o ressurgimento de um modo de pensar mais intuitivo e sapiencial, próprio da aurora pré-socrática da Filosofia no Ocidente.

D.M.D. – E quanto à Religião, onde é que a situa, em termos gerais, em relação à literatura e à filosofia de expressão portuguesa?

P.B. – Bom, tem sido notado, também, que um dos temas recorrentes ou mais presentes na nossa literatura e também na nossa filosofia é o tema, enfim, do sentido último da existência e da realidade primordial ou última, é o tema do que alguns designam como”Deus”. E a seu par a questão do mal… O Professor António Braz Teixeira, entre outros, destaca essas questões de Deus, do mal e da saudade. A saudade…, o sentimento de uma saúde primordial e simultaneamente de uma falha metafísica, de uma cisão originária, de uma ruptura ontológica, que de algum modo antecede e condiciona ou projecta a nossa constituição relativa no mundo. Disso resulta a saudade como memória e desejo de uma plenitude anterior à própria existência, que aspira a autodevorar-se no regresso ao que no fundo jamais deixámos de ser. São temas muito marcantes na nossa vida e cultura e daí na nossa literatura e filosofia, que em muitos autores assume um carácter marcadamente gnóstico. São temas de carácter metafísico e que têm naturalmente a ver com religião e espiritualidade. Diria até que têm a ver mais com a espiritualidade, porque para mim a espiritualidade não se reduz à religião e a religião não esgota a espiritualidade. Eu diria que há preocupações e inquietações espirituais que atravessam a nossa cultura poética, literária e filosófica..: às vezes são também preocupações religiosas, são preocupações enquadradas nesta ou naquela tradição religiosa, mas muitas vezes não.., correspondem a uma inquietação espiritual que não é facilmente conceptualizável como pertencendo a esta ou àquela religião.

D.M.D. – Pode-se dizer que a Literatura é uma Religião decadente, ou decaída, pode-se dizer que a Religião degenera em Literatura? E que valor terá esse fenómeno, um valor puramente negativo? Poderá a decadência da Religião ser um meio para o nascimento de uma expressão religiosa mais consciente?

P.B. – Creio que num sentido sim, como continuidade da decadência da própria experiência espiritual em religiões do Livro, pois a letra mata e o espírito vivifica, como disse São Paulo. Agora isso pode não ser apenas negativo, se a literatura convidar a uma experiência espiritual mais profunda e mais livre do dogmatismo religioso. Para isso, todavia, a literatura tem de convidar ao silêncio e à transcensão de si mesma, que é a transcensão do autor.

PAULO BORGES: “FERNANDO PESSOA CONTINUA A SEU MODO […] A RELAÇÃO COM TEIXEIRA DE PASCOAES E COM O SAUDOSISMO”

D.M.D. – E Fernando Pessoa, como é que o situa na Filosofia da Religião e na Filosofia em Portugal? Nas suas dissertações de mestrado e de doutoramento, em 1988 e em 2000, são Padre António Vieira e Teixeira de Pascoaes, respectivamente, os autores que analisa em especial e que mais lhe servem de ponto de partida para a reflexão, mas já na sua “adolescência”, segundo julgo saber, o Professor tinha uma “relação próxima, e por isso crítica, com a experiência pessoana”, a qual tem sabido manter, ou renovar., como demonstram as inúmeras publicações em que nos vem dando conta das suas investigações sobre Fernando Pessoa…

P.B. – Bem, tenho procurado compreender a singularidade de Fernando Pessoa à luz da sua radicação, por um lado, na tradição universal do pensamento e da literatura, mas também, muito particularmente, na tradição do pensamento e da literatura portugueses, onde me parece que o Fernando Pessoa continua a seu modo uma relação que para ele foi muito importante, que foi a relação com Teixeira de Pascoaes e com o saudosismo, como tem sido reconhecido por Eduardo Lourenço e outros. Mesmo quando ele assume a sua independência.., a sua rejeição, até, do Pascoaes e do saudosismo e do movimento da Renascença Portuguesa, ele não deixa de o fazer, precisamente, tomando posição contra aquilo que rejeita, pelo que acaba por ser condicionado por aquilo que rejeita. Por outro lado, eu entendo muito o Pessoa à luz dos ensaios que publicou em 1912 nas páginas da revista “A Águia”, do Teixeira de Pascoes, onde mostra como está profundamente impregnado do sentido de uma tradição poética que ele remonta ao Antero de Quental e que prossegue até ao Teixeira de Pascoaes e aos seus discípulos saudosistas… Eu leio Pessoa à luz de toda uma tradição de pensamento, que é também a tradição do Antero de Quental, do Sampaio Bruno, do Guerra Junqueiro e do Teixeira de Pascoaes, uma tradição que considero neognóstica. É claro que isso já não remete apenas para influências portuguesas, remete para coisas muito mais antigas, não é?, para uma matriz de pensamento, para uma estrutura de visão do mundo, onde é fundamental a experiência de uma cisão, de uma fractura…, entre o ser e a consciência, entre a consciência e ela própria, entre o ser e o sentido.., e que é constitutiva da nossa experiência mais imediata do mundo. Pessoa, aí, situa-se numa linha neognóstica clara e, nesse sentido, o pensamento de Pessoa tem todo o interesse para a Filosofia da Religião e para uma das matrizes mais importantes da Filosofia em Portugal, que é precisamente essa matriz neognóstica: o sentimento de se estar no mundo como sendo estranho ao mundo, porque algo em nós, como Pessoa diz num dos seus sonetos ingleses, algo em nós é anterior à própria constituição do mundo e ao próprio Deus que concebemos para explicar a constituição do mundo. Portanto, há qualquer coisa no homem que é da ordem do incriado, mas que está sujeito ao drama da inserção no espaço e no tempo, ao drama da existência. Apesar de este drama ser por Pessoa visto como ilusório, é daí que vem na sua perspectiva a nossa profunda inquietação, tema onde dialoga com outros grandes pensadores portugueses e universais.

D.M.D. – Esse será, então.., o ponto em que está mais de acordo com o Pessoa…

P.B. – Sim, na verdade, sinto-me próximo dessa matriz de pensamento, que é também uma matriz de pensamento que, a meu ver, se articula muito com as culturas orientais, embora estas tenham a vantagem de ser menos trágicas e dramáticas. É uma linha de investigação que tenho também procurado seguir, que é ver as pontes, explícitas e implícitas, entre os pensadores e poetas portugueses e as tradições orientais: no caso do Pessoa elas são flagrantes. Em Pessoa e Pascoaes há uma linha de pensamento que vê o mundo como um jogo ilusório, como ilusão da consciência, e nisso há um diálogo óbvio com a noção indiana de Maya, com a ilusão cósmica, enfim, e também com a noção de ilusão do barroco, onde já se trata de uma influência mais ocidental…

D.M.D. – Com o neoplatonismo…

P.B. – Com o neoplatonismo, exactamente… Há pouco esqueci-me de dizer isso, mas vejo Pessoa, desde a poesia inglesa e acentuadamente nos textos mais esotéricos, também muito nessa linha neoplatónica, que a meu ver marca muito toda a tradição do pensamento e da filosofia portugueses contemporâneos, com a ideia de uma fonte inefável de onde emana todo o múltiplo que a ela aspira a regressar, transcendendo o sensível e o inteligível.

D.M.D. – E em que ponto é que está em maior desacordo com Pessoa?

P.B. – Não é uma questão de desacordo, é questão, enfim, de sentir que em termos humanos falta qualquer coisa a Pessoa, que a meu ver será uma maior abertura à experiência da empatia, da compaixão, do amor… São experiências com que Pessoa não lidou bem, a partir da sua própria vida: há uma certa incapacidade de amar, uma certa incapacidade de compaixão, embora ela por vezes irrompa, que me deixa um pouco desolado na leitura dos textos pessoanos. Há uma certa crueza demasiado intelectual, que já no Pascoaes não encontro. Acho que o Pascoaes, nesse sentido, é mais completo, é alguém que tem uma intuição profunda, que diz coisas tão importantes ou às vezes mais importantes do que o próprio Fernando Pessoa, mas que tem ao mesmo tempo capacidade de empatia profunda com os seres vivos, com o mundo, com a natureza: o que em Pessoa não deixa de ser procurado, porque, no fundo, uma das grandes buscas pessoanas, nomeadamente por via do heterónimo Álvaro de Campos, é o “sentir tudo de todas as maneiras”, ser e sentir tudo de todas as maneiras, mas a meu ver é mais procurado do que vivido, sobretudo no Pessoa ortónimo e no “Livro do Desassossego”. Mas, enfim, isto não é uma questão de estar em desacordo, é mais uma sensibilidade a algo que considero crucial para a plenitude da vida humana e que a meu ver poderia tornar Pessoa ainda maior do que já é.

D.M.D. – Eu.., no meu caso.., acho importante.., acho que é importante ter compaixão, mas não tenho tanta certeza de que o Pessoa tenha sido incapaz de a viver..: e acho que a compaixão pode ser também uma.., uma dependência…
– Sim, mas para mim a verdadeira compaixão nunca se torna dependente: isso é a compaixão emocional e sentimental, sem a sabedoria que transcende a dualidade eu-outro.

D.M.D. – Sim…

P.B. – Eu compreendo que o Pessoa não tenha ido…, não tenha querido ir pelo caminho do sentimentalismo e das emoções…, meramente psicológicas: aí aprecio-o, mas acho que o amor…

D.M.D. – Às vezes pode ser uma prisão.., o falso amor, pronto.

P.B. – O falso amor: o amor quando se ama esperando alguma coisa em troca, não é? Esse é o falso amor do homem comum. Mas há o outro amor, o grande amor, que é o amor das almas nobres, que não esperam reconhecimento nem retribuição e o estendem a todos os seres e à própria realidade como um todo..: é desse amor que eu falo.

D.M.D. – De acordo… Em todo o caso, na “Introdução” do livro de estudos e ensaios pessoanos que publicou em 2011, “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu”, o Professor diz-nos que no início o “impacto” que teve em si Mário de Sá-Carneiro foi maior do que o que teve Pessoa: e o impacto que têm hoje um e outro, ou Vieira ou Pascoaes, ou Camões.., é possível dizer qual dos autores por si estudados, portugueses ou não, tem hoje maior impacto no seu pensamento ou na sua vida?

P.B. – Bom, na verdade…, o primeiro grande impacto que eu tive…, o primeiro grande impacto que senti de um poeta na minha vida foi o de Mário de Sá-Carneiro…, no qual me reconheci, identificando-me muito com o que ele escreveu, com a experiência que ele expressa em muitos dos seus poemas, mas logo a seguir foi Pessoa e foi muito mais tarde que descobri Pascoaes e outros poetas portugueses, como o Antero de Quental, que é para mim uma grande referência. Hoje em dia é muito difícil avaliar o impacto que eles têm no meu pensamento e na minha vida: eu diria que foram deixando marcas, quer dizer, tenho muitas marcas do Padre António Vieira, tenho marcas do Luís de Camões.., mais recentemente e mais notoriamente tenho marcas de Pascoaes e de Pessoa.., além de Antero, mas é difícil dizer qual deles me marca mais. Na verdade, quem me marcou mais, a par dos meus mestres budistas tibetanos, foi Agostinho da Silva, com quem tive o privilégio de conviver nos últimos doze anos da sua vida. Além disso, e sem esquecer pensadores como José Marinho, Eudoro de Sousa e Vergílio Ferreira, ou sábios como o Buda Shakyamuni, Lao Tsé, Cristo, Plotino, Mestre Eckhart, Nagarjuna e Longchenpa, penso que o que me marca mais é a tentativa de fazer uma síntese de todas estas influências, portuguesas e não só, e de as superar, numa síntese minha, numa síntese de pensamento e de experiência, que considero que não é redutível a qualquer um dos autores que me influenciam, com excepção daqueles que considero seres despertos e insuperáveis, como o Buda Shakyamuni, Nagarjuna e Longchenpa.

D.M.D. – O próprio Pessoa era bastante favorável às sínteses, também procurava sintetizar, ou até mesmo superar, não é?

P.B. – Sim, sim, nesse sentido continuo o projecto de trabalho, digamos, que herdei do Fernando Pessoa.

PAULO BORGES: “O QUE UMA OBRA COMO A DE PESSOA PEDE […] É QUE OLHEMOS PARA ELA A PARTIR DE TODOS OS PONTOS DE VISTA POSSÍVEIS”

D.M.D. – Por outro lado, no livro que referi, “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu”, publicado o ano passado, o Professor diz-nos que “a obra pessoana começa a ganhar mais visibilidade filosófica, nacional e internacional, após sobre ela ter sobretudo incidido o foco dos estudos literários.” Também nos diz, é certo, de acordo com o pacifismo que me parece caracterizar o seu pensamento, que o que “espera” é que “as abordagens filosófica e literária de Pessoa” se “animem” “a darem-se interdisciplinarmente as mãos para que toda a sua riqueza de pensador e escritor possa revelar-se a uma outra luz, inaugurando uma nova fase dos estudos pessoanos”. Não obstante, pois, pergunto-lhe: em que medida, um pouco mais em particular, é que a referida atenção filosófica é um traço distintivo da actualidade dos estudos pessoanos, ou em que medida é que a inauguração dessa nova fase dos estudos pessoanos de que fala depende da recente atenção filosófica sobre os escritos, quer poéticos quer ensaísticos, quer narrativos, ou simplesmente avulsos, de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos?

P.B. – Bom, eu penso que sempre houve, desde os primeiros tempos, desde a génese dos estudos pessoanos, sempre houve…, e estou a pensar por exemplo na obra do Jacinto Prado Coelho, “Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa”.., sempre houve a consciência de que a obra de Fernando Pessoa tinha uma considerável importância filosófica. Agora, o que me parece é que houve todo um ciclo, que tem durado até há poucos anos, em que de facto os estudos literários têm dominado mais a hermenêutica pessoana, o que fez com que a importância filosófica da obra de Pessoa não tenha sido suficientemente reconhecida, porque não houve hermeneutas com a formação filosófica suficiente para detectar todos os diálogos explícitos e implícitos do autor com a tradição filosófica ocidental, ou mesmo planetária. Mais recentemente, a inflexão dos estudos pessoanos num sentido mais filosófico, o facto de haver uma nova geração de investigadores formados em Filosofia, especialistas em Filosofia, a debruçarem-se cada vez mais sobre a obra pessoana e a produzirem estudos de envergadura – nomeadamente, também, teses de mestrado e doutoramento – , tem possibilitado que a obra pessoana comece a mostrar toda a sua riqueza filosófica, o que a meu ver constitui, de facto, um novo marco nos estudos pessoanos… Naturalmente, como eu digo e como refere, seria absurdo entrarmos agora aqui numa competição entre uma abordagem filosófica e uma abordagem mais literária: eu penso que a obra de Pessoa é suficientemente rica para transcender essas clivagens e o que ela pede de nós é que sejamos capazes de darmos as mãos interdisciplinarmente, olhando para Pessoa a partir de ambas as perspectivas e de outras perspectivas ainda, porque o que uma obra como a de Pessoa pede.., uma obra poliédrica e heteronímica.., é que olhemos para ela a partir de todos os pontos de vista possíveis.

D.M.D. – Por isso é que começou por dizer que a não-emancipação da Filosofia pode ser positiva, não é?

P.B. – Pode ser positiva, sim…, em relação à Literatura?

D.M.D. – Sim.., que o que é positivo é darem-se as mãos os dois pontos de vista…

P.B. – Sim, sim, o que é positivo é darem-se as mãos os dois pontos de vista, até porque, como continuo a dizer, não considero que a Filosofia e a Literatura sejam propriamente disciplinas separadas: digamos que os estudos académicos acabaram por separá-las, mas na experiência humana elas estão intimamente ligadas.

D.M.D. – E a Ciência?

P.B. – Bem, a Ciência, na sua dimensão teórica, vejo-a como uma aplicação da Filosofia… Portanto, não a vejo, também, separada da Literatura e da Poesia: há Poesia e Literatura presentes na Ciência. Além da Ciência ser apenas uma versão possível do mundo, e de ter assim uma dimensão de criação poética, há metáforas científicas, muitas vezes a Ciência precisa de recorrer às metáforas e hoje recorre muitas vezes… Ao nível da Física Quântica fala-se da dança da energia e das partículas, fala-se do jogo dos fenómenos.., enfim, são metáforas, metáforas que vêm da Filosofia, da Literatura e até da Religião e da Mitologia… O jogo dos deuses, Lila, e a dança cósmica de Shiva, Nataraja, o Senhor da Dança…

D.M.D. – E talvez, por outro lado, haja algo de científico na Literatura e em toda a Arte, não? Há pelo menos racionalidade, rigor…

P.B. – Há pelo menos, e é muito, o rigor trans-racional da intuição sensível… Mas claro que também há racionalidade, uma racionalidade mais aberta do que a razão meramente formal e analítica de certas filosofias…

D.M.D. – Certo.., seria bom ouvi-lo falar um pouco mais sobre o tema, mas voltando agora aos estudos pessoanos… Na entrevista que nos concedeu, Jerónimo Pizarro, não sendo oficialmente um académico de Filosofia, considera que actualmente o maior desafio na investigação sobre Pessoa é a “crescente vastidão desse universo, em termos biográficos e bibliográficos”, concluindo que “dentro de cem anos” o que acontecerá é que “serão necessários outros cem para ler tudo o que Pessoa e os seus críticos” todos terão “escrito”. E, no entanto, ao mesmo tempo Pizarro considera que, num certo sentido, o de alguma falta de “diálogo”, de alguma falta de “dinamismo” das instituições “portuguesas” e de alguma falta de “internacionalização”, “os estudos pessoanos” “ainda” nem sequer “existem”, não como os husserlianos, por exemplo, ou outros, mais consolidados..: haverá algo de verdadeiro, ou pelo menos de filosófico, na aparente contradição?

P.B. – Bom, esse último juízo considero-o de todo infundamentado e excessivo… Perante umas boas décadas de estudos pessoanos, com tantos estudiosos e intérpretes da mais elevada qualidade, que são referência para todos nós, e não preciso de citar nomes, como é possível ignorá-los e dizer que eles não existem!?… Agora, estou de acordo com o Jerónimo Pizarro quando diz que há uma certa falta de diálogo, que eu diria, fundamentalmente, ser uma falta de diálogo entre investigadores individuais, investigadores pessoanos individuais, e entre grupos de investigadores. Muitas vezes constituem-se grupos, compartimentos estanques de investigadores, que não só não têm relação entre si como não querem ter essa relação e até cortam relações entre si. Isso é lamentável, lamentável do ponto de vista humano e lamentável do ponto de vista científico: todos nós perdemos humana e cientificamente com isso, com essa situação. Penso que é uma situação que o nosso próprio amor filosófico e literário pela obra de Pessoa nos exige que superemos e que deve ser superada quanto antes. Quanto a haver alguma falta de dinamismo das instituições e falta de internacionalização, penso que pode e deve sempre haver maior dinamismo e cooperação institucional, mas também constato que começamos a assistir a algumas iniciativas muito interessantes, que se prendem precisamente com uma crescente internacionalização dos estudos pessoanos: começamos a ver iniciativas científicas e linhas de investigação a acontecerem em Portugal com muitos doutorandos estrangeiros que estudam filosoficamente a obra de Pessoa, como acontece no Departamento e Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, onde trabalho, e a acontecerem também fora de Portugal, noutras universidades. Há hoje um crescente interesse pela obra de Fernando Pessoa em todo o mundo e há também a crescente presença nos grupos de investigadores pessoanos e na produção de teses e de livros de pessoas que vêm de fora de Portugal. Há muitos estrangeiros que integram grupos de investigação pessoanos e há também estrangeiros a participar em colóquios e outras iniciativas científicas em Portugal, já para não falar das que têm lugar fora de Portugal… Neste momento até se nota que os investigadores estrangeiros estão particularmente activos, até mais do que os portugueses, no domínio dos estudos pessoanos: a esse nível não considero que haja falta de internacionalização, embora possa ser cada vez mais desenvolvida, como é óbvio, e é para isso que trabalhamos.

D.M.D. – Então.., não está muito preocupado com o futuro dos estudos pessoanos e do próprio legado de Pessoa, nomeadamente na actual conjuntura económica e política?

P.B. – Bem, é claro que numa conjuntura em que as pessoas, e em particular a governação, estão mais ou quase só preocupadas com a economia e com as finanças, o meu maior temor é em relação a toda a Cultura… A grande Cultura, que está aliás em risco de extinção, passa sempre para segundo, terceiro, quarto ou quinto plano. Mas penso que neste momento os estudos pessoanos estão assegurados, a não ser que haja um colapso económico-financeiro…, o que não deixa de ser uma possibilidade que está neste momento em cima da mesa, em cima da mesa do mundo e particularmente da Europa. Todavia, aquilo que de imenso já se fez nos estudos pessoanos permite garantir, neste momento, que muito mais se continuará a fazer: penso que à obra pessoana nunca faltarão hermeneutas e comentadores. A dificuldade, e só aí estou mais de acordo com o Jerónimo Pizarro, vai ser que, à medida que o tempo passa, vamos ter cada vez mais coisas para ler, quer do próprio Pessoa, quer dos comentadores do Pessoa, mas isso é bom sinal e é o que acontece com todos os grandes autores, é o que acontece com Platão, com Aristóteles, com Kant, com Nietzsche, com todos os grandes pensadores e todos os grandes escritores. Por outro lado, para acedermos ao essencial do próprio autor, podemos sempre, numa atitude mais despojada, ler os seus textos directamente… A não ser que estejamos a fazer um trabalho académico, não precisamos de ler necessariamente todos os comentadores.

D.M.D. – E em que medida é que lhe parece que pode ser útil, intersubjectivamente, intergeneracionalmente, internacionalmente, interdisciplinarmente.., realizar reuniões científicas como o Colóquio Internacional “Fernando Pessoa en Barcelona”?

P.B. – Não só é útil como é fundamental e corresponde ao próprio dinamismo de internacionalização da obra do Pessoa. Eu penso que, no fundo, isto que está a acontecer, este colóquio agora em Barcelona e outros internacionais que se prevê que venham a acontecer, dentro e fora de Portugal, corresponde ao próprio dinamismo da obra pessoana, que é uma obra com um forte espírito cosmopolita…, com um forte espírito universalista…: é uma obra por um lado muito portuguesa, mas o que ela tem de mais português é precisamente, como Pessoa assume, essa dimensão universalista e trans-portuguesa, trans-lusíada e trans-lusófona. Pessoa viu claramente que a nossa maior vocação é a do espírito cosmopolita e universalista e que Portugal é um sinónimo de universalidade, sendo vocacionado para o que chamei, num livro de 2010, a visão/abraço armilar do mundo: nesse sentido, é natural que surja este colóquio em Barcelona e que outros venham a acontecer. Vejo neste momento a obra de Pessoa como aquela garrafa com uma mensagem que Portugal lança ao mar e oceano do mundo e que pode ser recebida e lida por homens de todo o planeta que nela se podem reconhecer e a podem acrescentar da sua leitura culturalmente diferenciada. Isto porque Pessoa escreve a partir de experiências que são fundamental e universalmente humanas, onde todo e qualquer homem, independentemente da sua cultura, se pode reconhecer. Nesse sentido, o destino de Pessoa é ser tudo, de todas as maneiras, precisamente o programa do Sensacionismo e o mesmo destino que anteviu para Portugal: quando lhe perguntaram qual era o destino de Portugal, respondeu “é sermos tudo”, o que para ele é o Quinto Império. É esse também o destino da obra de Pessoa: chegar a todos, de todas as maneiras. E talvez seja o de todos nós, pelo menos interiormente. Identifico-me plenamente com o que escreve Bernardo Soares: “Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar”. Que grande e libertadora mensagem para ser encontrada numa garrafa à deriva em qualquer praia ou costa do mundo!

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